FORMAÇÃO CONTINUADA...

A PALESTRA DO PROFESSOR JOSÉ PACHECO ATRAVÉS DOS OLHOS DE UMA EDUCADORA...

Dia 06 de junho de 2009, durante o XXI Seminário de Educação de Cachoeirinha, foi proferida a palestra com o Profº JOSÉ FRANCISCO DE ALMEIDA PACHECO, como ele se intitula: "O Zé da PONTE", com o Tema: “Inclusão Escolar e Social: Como fazer?”.
Seu currículo dispensa apresentações: Especialista em Música e em Leitura e Escrita, José Pacheco coordena desde 1976 a Escola da Ponte, instituição pública que se notabilizou pelo projeto educativo inovador, baseado na autonomia dos estudantes. O pedagogo português, que se diz "um louco com noções de prática", é mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto; Investigador (IIE-FPCE-UP e Instituto Paulo Freire).
Já nos primeiros momentos de sua presença no auditório, sentíamos sua forma diferenciada de colocar-se. Aquietou-se e esperou que TODOS se calassem (aproximadamente 500 pessoas). Ao término de alguns minutos, de um silêncio absoluto, deu início a sua fala. E então explicou o porquê de sua atitude, dizendo: “É tal como os alunos da Escola da Ponte, eu também respeito quem está falando e numa atitude respeitosa, o esperarei terminar para que eu possa falar”.
E foi com esta atitude de humildade e sabedoria que iniciou sua fala, com uma pergunta: O QUE VOCÊS QUEREM SABER?????
Mais um “terrível” silêncio se abateu sobre o auditório, causando espanto e perplexidade aos “ouvintes”. Então ele explicou que sua fala só seria significativa, se ela estivesse em consonância com o desejo de saber, das pessoas presentes!!!!
Passado o segundo espanto... Começaram-se as perguntas, e ao seu relato, mas não de algo que está em livros, de teoria, mas de uma experiência, de algo que foi vivido e que é possível.
Falou de sua longa caminhada de 33 anos na Escola da Ponte, pois foi lá que entrou como professor, em 1976. Nesta época, a violência nas escolas, e também na Escola da Ponte eram terríveis. Alunos desmotivados, agressivos, sem limites, marginalidade, o caos total. A escola, por sua vez, se quer tinha banheiro para os alunos, não havia nada! Os alunos eram os que tinham os piores resultados; crianças na 4ª série não sabiam ler, eles apenas sabiam bater e xingar. Os alunos vinham para a escola sujos, descalços, com fome, traficavam e consumiam drogas. Conta que na Escola da Ponte os professores tinham pânico de entrar na sala de aula, pois frequentemente eram ameaçados pelos alunos, e às vezes apanhavam destes; eram professores tristes, aterrorizados pelo medo, desmotivados.. Ele próprio foi agredido por um aluno, e numa atitude de descontrole e auto preservação também o agrediu. Assim, a Escola da Ponte, começou com a máxima violência, para hoje ser modelo de respeito, de alto nível de aprendizagens, mas, sobretudo de inclusão social.
E foi a partir dai que o Professor José Pacheco afirma que: “Deixei de dar aulas para ser professor”...
Hoje, os alunos da escola da Ponte são referência em desempenho e aprendizagens, ou seja, estes alunos da rede pública são os MELHORES alunos do País.
Mas para isto TUDO teve que ser mudado...
A Escola propôs para o governo um desafio para mudança, mas para isto, teria que ter AUTONOMIA TOTAL! Autonomia quanto a seu projeto, estrutura, contratação de professores e funcionários, de gestão, enfim, queriam fazer tudo diferente.
O desafio foi lançado !!!!
E a Escola começou a transformação...
Hoje, a Escola contrata e escolhe seus professores, dentro do perfil que a Escola tem; o coletivo é quem dirige a Escola; a figura do “diretor” é apenas formal; não há turmas; não há aulas; não há carga horária; não há planejamento feito pelos professores; não há portões, nem grades, nem livros didáticos........ A Escola transformou-se em um lugar de TRABALHO! E um espaço democrático!
Quanto às regras? A Escola da Ponte é a Escola mais estruturada do que todas, pois as regras e a organização são feitas pelo coletivo (pais, alunos, professores, funcionários), cada um é responsável por tudo e por todos.
Na Escola da Ponte, cada aluno decide o que quer aprender, o que tem curiosidade de saber. Neste sentido ocorre a formação dos grupos por afinidades, e que passará a escolher o professor que acompanhará este grupo durante este projeto. O início deste aprendizado está sempre precedido por uma pergunta. Os professores têm o papel de ouvir a pergunta e facilitar com que cada um encontre suas respostas, mesmo que para isto, tenha que fazer uma vasta pesquisa até chegar a seu objetivo primeiro. E é neste caminho que o aluno irá construindo seu conhecimento. Depois de definido sua pergunta, cada aluno faz seu planejamento, que deve ocorrer por aproximadamente 15 dias. Ao final deste período, fará um relatório de suas aprendizagens em todas as áreas do conhecimento.
Assim, ao utilizar a metacognição, esta exerce influência direta sobre a motivação, pois o fato dos alunos poderem controlar e gerir os seus próprios processos cognitivos lhes dão a noção da responsabilidade pelo seu desempenho escolar gerando confiança nas suas próprias capacidades, e aprendizagens.
Existem critérios para a formação dos grupos: 1) interesses comuns; 2) afetividade (gostar de trabalhar com aqueles colegas e professor); 3) heterogeneidade deve constituir-se de sujeitos que tenham diferentes idades e saberes. Neste sentido, uns aprendem com os outros, e cada um sente-se responsável pelo aprendizado do outro.
Sobre a escola de hoje, José Francisco, coloca que a seu ver está “TUDO ERRADO”. Professores solitários, acuados, com medo, desmotivados, que acreditam que nem todos os alunos aprendem. Coloca que hoje aqueles alunos que aprendem iriam aprender mesmo não estando na escola. Que a grande questão atual é porque muitos não aprendem. Para isto aponta para a uniformização de métodos de ensino que idiotiliza os sujeitos, pois cada sujeito tem sua forma de aprender e cabe ao professor descobrir e ajudá-lo. O interesse do aluno é renegado, quem diz o que tem que ser “aprendido” é o professor, que muitas vezes nem ele sabe para quê. O aluno não é escutado, não se posiciona, não opina no que quer saber.
O professor José Francisco destaca que, atualmente, pesquisas apontam que: até o final da educação infantil 50% das crianças ainda perguntam; nos anos finais do ensino fundamental apenas 10%, e no final do ensino médio, apenas 1%. Existe um gradual desserviço da capacidade de argumentação e de pensamento.
Concluindo diz que as aulas pré-determinadas pelo professor inibem a iniciativa e a curiosidade da criança/adolescente, destacando que entende que o que está nos livros não precisa de aulas para isto, estala para ser lido. Que enquanto o professor estiver solitário em sua sala de aula, será fraco, vulnerável, mas onde puder contar com o auxílio e o apoio de outros, este fatalmente, se sentirá seguro e forte. E frisa: “A profissão do educador deve passar de uma profissão solitária, para uma profissão solidária”. Onde TODOS se sintam responsáveis em gestar a escola, onde a diversidade, de idéias e saberes, venham a enriquecer o fazer pedagógico e o espaço escolar.
E questiona:
Por que e para quê dividem-se os alunos por níveis?
Isto promove o quê?
Porque é preciso ter uma sala de aula, um espaço determinado para “aprender”?
Na Escola da Ponte, os alunos estão responsavelmente unidos uns com os outros e, são co-responsáveis pelos aprendizados de todos, num regime de cooperação e integração. E para isto é utilizado vários espaços da escola, pois vai depender de quais recursos eles precisarão para construir suas aprendizagens (bibliotecas; computadores; saídas de campo; visitações, etc).
Ao final da palestra, todos os presentes o aplaudiram de pé, e entenderam a mensagem, de que A UTOPIA É POSSÍVEL!!!! Pois ela foi e está sendo vivida na Escola da Ponte.

NA PAUTA: A INCLUSÃO !
Na semana de 6 à 9 de abril, toda a rede das Escolas Municipais de Cachoeirinha, desde a educação infantil até o ensino fundamental, fecharam suas escolas para pensar sobre “Inclusão”. Tivemos uma formação maravilhosa com a Professora Soraia Napoleão, da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), da qual fez parte do Grupo de Trabalho da Política de Educação Especial do MEC.
Neste evento foi possível debater sobre como este processo está acontecendo em nossas escolas. Nesta oportunidade a Professora Soraia, refere a inclusão como compromisso de toda sociedade. Falou que a escola precisa repensar seu caminho, rever seu Projeto Político Pedagógico, para que possa trabalhar, realmente, na perspectiva dos alunos, onde supõe uma nova organização filosófica, curricular e avaliativa. Somos “preparados” para trabalharmos com o aluno ideal, e este nunca existiu, por isso, aponta para um novo enfoque, onde conteúdos pedagógicos e curriculares que possam estar voltados para o estudo e a compreensão das diferenças. E isto, requer que a escola pare e pense no seu compromisso ético e moral de atender a todos, com qualidade. Mas penso também que este compromisso não deva ser só por parte da Escola, mas do Estado, que se omite de sua responsabilidade em oferecer atendimento médico e especializado a estas pessoas especiais e seus familiares. Creio que só vamos avançar de fato, quando TODOS os envolvidos no processo de inclusão, a ESCOLA, pensando e executando ações que viabilizem o respeito a limitação ou especificidade da necessidade do aluno, adaptando seu currículo e sua forma de avaliação; a FAMÍLIA, ao comprometer-se e responsabilizar-se pela efetiva participação e assiduidade do aluno, ao atendimento clínico e especializado, quando necessitar; o ESTADO em oferecer instituições de saúde no Sistema Unico de Saúde, e que estes sejam de qualidade e fácil acesso e a SOCIEDADE em favorecer que a inclusão se dê em todos os âmbitos da vida social. Onde cada segmento possa se comprometer e se responsabilizar por suas ações, ampliando sua perspectiva de visão para um mundo real, onde a diferença seja vista não como anormalidade, mas como parte da individualidade de cada uma. Ou seja, nem mais , nem menos, apenas diferente !
Vejo que a Escola, por sua vez, tem tentado fazer sua parte, mesmo com o despreparo dos professores, mesmo assim, ela está longe de ser uma escola inclusiva, estando hoje apenas fazendo ações inclusivas.







Comments (5)
Daniela said
at 5:04 pm on May 7, 2009
Boa tarde Neila,
Que bom que o Município de Cachoeirinha esta mobilizado para as questões da inclusão escolar. Acho importante fazer alguns esclarecimentos: a professora Soraia Napoleão de Freitas é da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM e não da UFRGS. Como esta é uma primeira aproximação do seu leitor com o texto é preciso que evite o uso de siglas sem a devida explicação da mesma por extenso, por exemplo: PPP (Projeto Político Pedagógico ou Plano Político Pedagógicio?). Uma questão que pode ser mais aprofundada contempla aqueles que você chama de "todos os envolvidos no processo de inclusão": escola, família, estado e sociedade e o que isso significa. Continue o bom trabalho!
Abçs,
Daniela
neila goulart said
at 11:36 pm on May 13, 2009
Olá Professora Daniela !
Fiz as alterações, realmente agora ficaram expostas com mais clareza o que entendo sobre o compromisso que cada segmento da sociedade tem em relação a inclusão. Também pude corrigir meu equívoco.
Obrigada.
Um forte abraço
Neila
Daniela said
at 11:49 am on Jun 20, 2009
Cara Neila,
É um prazer visitar seu dossiê. Cada vez uma nova surpresa e uma nova colocação que extrapola o que foi pedido nas atividades. Parabéns pela sua iniciativa e pelo excelente trabalho.
Abçs,
Daniela
* Sugiro que na parte sobre inclusão você utilize a mesma letra e espaçamento do restante do dossiê.
Daniela said
at 11:51 am on Jun 20, 2009
Cara Neila,
Não comentei sobre a parte do texto que escreve sobre o Zé da Ponte porque esta muito bom e não me atrevo a acrescentar nada... rsrsrsrs
Abçs,
Daniela
neila goulart said
at 9:06 pm on Jun 25, 2009
Olá Profi daniela!
Olha eu tentei formatar todos os textos com a mesma fonte/tamanho/cor, mas foi IMPOSSÍVEL. O works não me obedece.
Desculpa... Não é má vontade é empate tecnológico.
Um forte abraço
Neila
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