
PARA PENSAR:
Honestamente, quais os critérios que usamos para avaliar nossos alunos?
Será que não temos um padrão pré-estabelecido ao qual comparamos?
ISTO É INCLUIR??????????????






NOS TEMPOS EM QUE NÃO SE FALAVA EM INCLUSÃO...
Trabalho em uma Escola de Educação Infantil, faço parte da direção e sou responsável pela parte pedagógica. Durante os dez anos que estou na escola, pouca demanda de crianças com necessidades especiais bateram em nossa porta. Isto, creio que seja porque a Escola situa-se em um pequeno bairro, numa área bem carente, de difícil acesso, muito afastado do centro da cidade e longe de quase todos os recursos (farmácias, hospitais, clínicas, APAE, Escola Especial, entre outros), por isso o deslocamento fica prejudicado pela distância. Penso que esse número reduzido de inclusões em nossa Escola, se dê por estas famílias de crianças com necessidades especias, optarem em morar mais próximo de lugares que ofereçam atendimentos especializados, por exigir um acompanhamento mais sistemático. Também porque o que vemos é que pelo Município contar apenas com a APAE, muitas das crianças ficam sem qualquer atendimento, apenas aguardando numa lista de espera infindável, portanto, os encaminhamentos são raros.
Por se tratar de um atendimento a crianças pequenas, percebemos que a maioria dos casos entram na escola sem nenhuma indicação de necessidades especiais. Os pais, por sua vez, omitem o fato ou por desconhecimento não percebem algumas características do filho que difere de um desenvolvimento dito “normal”. Neste sentido vemos a Escola como um espaço importantíssimo para estas crianças, pois ao detectar qualquer sintoma, podemos, já desde cedo, auxiliar para que esta criança possa vir a ter um atendimento, ou um trabalho diferenciado.
Um dos primeiros casos, que hoje poderia classificar de inclusão, aconteceu há aproximadamente 10 anos atrás, quando recebemos em nossa Escola, uma criança, que chamarei de Pedro, com aproximadamente 3 anos. Pedro não falava, não aproximava-se das outras crianças, não gostava de colo e ainda usava fraudas. Notávamos que Pedro tinha um olhar distante e pouco interagia com as educadoras. Nas brincadeiras não participava, querendo sempre ficar isolado; passava um bom tempo se embalando encostado na parede. No pátio gostava de correr de um lado para outro em linha reta, pra lá e para cá. Apenas uma coisa tirava Pedro de seu mundo.... A música. Quando colocávamos música para tocar ele saía dançando, com seu gingado e dava um show. Ao analisar seu comportamento começamos a entrar em contato com a família, procurando investigar como Pedro era em casa, quais as coisas que ele gostava de fazer quando não estava na Escola, se tinha algum acompanhamento médico, entre outras coisas. A família resistia em admitir que Pedro era uma criança “diferente”. Na época não se usava o termo “especial”. O tempo foi passando, Pedro foi para o maternal 2, agora já com 4 anos, e continuava a apresentar as mesmas características, mas já verbalizava algumas palavras (monossílabos). Pedro não incomodava, pois era só ligar o rádio que ele se distraia a dançar. As educadoras tentavam de todas as formas que Pedro participasse das brincadeiras, mas este só participava, do seu jeito, quando estas envolviam música. Durante este ano, a família decidiu procurar ajuda a Pedro. Foram feitas avaliações e Pedro passou a tomar medicamentos e a participar de sessões de terapia. A família sempre evitou dar o seu diagnóstico à Escola, mas passamos a perceber um grande empenho desta ao tratamento da criança e um progresso no seu desenvolvimento social e afetivo. A partir de então, a Escola começou a estimular sua participação, convidando a ensinar os colegas a dançar; a fazer apresentações para as outras turmas e a valorizar o seu saber. Pedro começou a cada dia interagir um pouco mais com os colegas e os colegas com ele. Nas brincadeiras de faz de conta, aceitava fazer parte da brincadeira, nestas Pedro sempre era o filho que gostava de dançar em casa ou ir ao baile. Aos 5 anos, já controlava os esfíncteres, usando fraudas apenas para dormir; expressava claramente sua vontade; mas permanecia quase sempre sozinho em suas brincadeiras, brincava de carrinho, fazia estradas e adorava música ! Aos 6 anos, quando saiu da Escola, Pedro já não tinha o olhar tão distante; no aspecto cognitivo, Pedro escrevia algumas letras de seu nome.
Esta foi a primeira experiência de inclusão na escola em que trabalho. Durante a estada de Pedro na Escola, pudemos ver muitos de seus avanços e aprendizados, sendo os relacionados ao aspecto social os mais significativos. Mas ao analisar esta convivência, vemos que a Escola, nos primeiros anos, não conseguia incluí-lo em sua proposta. Não sabia como lidar com ele, e foi preciso perceber a sua evolução no seu desenvolvimento, a partir do tratamento, para que pudesse “investir” pedagogicamente em seu potencial. ACREDITAR QUE ERA CAPAZ !

Comments (2)
Daniela said
at 4:56 pm on May 7, 2009
Boa tarde Neila,
Gostei muito da maneira como nos introduz no universo de Pedro, desde os tempos em que você diz que "não se falava em inclusão". Você apresenta algumas quesões que podem ser melhor desenvolvidas, por exemplo: o que significa dizer que poucas crianças batiam a porta da escola? Onde elas ficam e por que? Sua reflexão sobre a necessidade de Pedro de usar fraldas e depois não precisar usar mais representa que ele conseguiu amadurecer com a ajuda dos pais, dos colegas, professores, da escola... Durante a leitura estranhei quando escrevestes que Pedro não incomodava e que bastava ligar o rádio...cheguei a pensar: O que Neila quer dizer? Onde quer chegar? Mas, seduzida pelo seu texto e curiosa fui acompanhando com atenção o que você escrevia e ao final, quando de certa forma você conclui este texto, observei que meu estranhamento era referente a uma parte da história que você conta (durante um certo período) cujas ações dos professores e alunos foi se modificando aos poucos, com o tempo. Compartilho sua palavras finais: é preciso investir pedagogicamente no potencial de nossos alunos.
Ótimo trabalho!
Abçs,
Daniela
* Achei interessante as pistas que você dá ao seu leitor sobre a possível deficiência de Pedro.
Daniela said
at 11:46 am on Jun 20, 2009
Bom dia Neila,
Vi que você voltou a seu dossiê e complementou as informações melhorando ainda mais a qualidade de seu texto.
Talvez você possa apenas explicar ou comentar a charge inicial: NOS TEMPOS ONDE NÃO SE FALA EM INCLUSÃO... e substituir a palavra onde por 'em que'.
Abçs,
Daniela
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